O que muda na volta ao trabalho pós-isolamento?

Como será a volta ao trabalho pós-pandemia é a preocupação de muitos gestores. Isso tende a ficar mais evidente com a flexibilização da quarentena contra o novo coronavírus no Brasil.

Várias questões devem ser abordadas, a fim de se fazer um planejamento para a retomada das atividades. Entre elas, o distanciamento social na empresa, as questões de higienização e, até mesmo, como estará a saúde mental dos colaboradores.

Pensando nisso, preparamos este artigo com reflexões sobre o que muda na volta ao trabalho pós-isolamento social. Acompanhe!

Como será a volta ao trabalho

Uma resposta exata ainda não pode ser concedida, visto que o isolamento social decorrente da pandemia causada pelo novo coronavírus é algo inédito na nossa sociedade. Mas é certo que as rotinas não serão mais as mesmas — não só por conta dos hábitos de higiene, limpeza e distanciamento que deve prevalecer, mesmo após a flexibilização.

Questões como mais qualidade de vida no trabalho, bem-estar do empregado, flexibilização com trabalho remoto e uma série de outras estarão mais evidentes na volta ao trabalho.

Nesse cenário, a empresa deve estar preparada para atender às expectativas dos colaboradores. Afinal, eles desejam um ambiente mais humanizado, alinhado aos valores de valorização da saúde física e mental.

Entretanto, ainda é preciso pensar em questões práticas. Uma delas é garantir que as pessoas estejam em segurança no deslocamento para o trabalho e dentro da própria organização.

Para isso, é preciso pensar em estratégias que colaborem para o foco da operação. Elas devem assegurar a produtividade, ao mesmo tempo em que levam em conta as necessidades operacionais e o orçamento de cada corporação.

Boas práticas no retorno ao escritório

Nesse sentido, um RH humanizado se faz necessário, à medida que deve colaborar para as ações de bem-estar de toda a equipe. Acompanhe as dicas que separamos para você planejar a volta ao trabalho dos colaboradores no pós-isolamento.

Estabeleça normas de conduta

Para garantir um ambiente de trabalho saudável, visando à diminuição do risco de contágio na empresa, o setor de gestão de pessoas deve atuar com o estabelecimento de normas de conduta. Questões como uso de objetos compartilhados devem ser analisadas para que sejam criadas e divulgadas regras de uso.

O setor pode, inclusive, trabalhar em conjunto com a equipe de segurança do trabalho e saúde ocupacional. Assim, é possível mapear as áreas de risco e garantir que as informações cheguem a todos os colaboradores, de forma simples e direta.

Flexibilize o trabalho

Flexibilizar as rotinas com o home office, incentivar as reuniões virtuais e a implantação de diferentes turnos de trabalho são medidas que o setor de gestão de pessoas pode fomentar para mitigar os riscos de contágio.

Incentive o uso da tecnologia

Especialistas são categóricos em dizer que a pandemia acelerou o uso da tecnologia nas empresas. Em momentos de isolamento social, ela tem sido fundamental para conectar pessoas, diminuir distâncias e até mesmo otimizar recursos.

Todos esses benefícios configuram vantagens competitivas para as organizações. Por isso, devem receber a devida atenção da gestão da empresa, com a troca, por exemplo, de computadores desktops por notebook, incentivo à adesão de celulares corporativos, em vez de linhas fixas, investimentos em tecnologia da informação, suporte remoto, entre outros.

Considere o desafio do retorno para pais e mães

Um dos grandes desafios para quem tem filhos será encontrar alguém para deixar as crianças, já que as escolas ainda não têm previsão de retorno.

Diante dessa realidade, o setor de gestão de pessoas deve oferecer a oportunidade aos colaboradores com crianças em casa de manter, mesmo que temporariamente, o home office, até que o cenário volte ao normal.

Disponibilize acompanhamento psicológico

Não adianta pensar apenas em estrutura física e adequação dos processos, se a saúde mental dos colaboradores não estiver em dia. Isso porque a perda de parentes próximos é uma realidade vivida por diversos profissionais.

Logo, é preciso trabalhar para identificar quais colaboradores tiveram pessoas próximas afetadas pela doença durante o isolamento, colocando os serviços da empresa para oferecer apoio emocional antes da volta ao trabalho.

Além disso, mesmo aquelas pessoas que não perderam seus parentes, também podem ter sido acometidas por inseguranças e medos, principalmente, devido à falta de estabilidade no mercado de trabalho. Isso contribui para a elevação das taxas de ansiedade e, em níveis mais altos, até depressão entre os profissionais.

Adeque os espaços físicos

Algumas medidas para propiciar a mitigação da propagação do vírus são necessárias e merecerão atenção — e até mesmo investimentos — para garantir a saúde e a segurança dos colaboradores. Entre elas:

  • distanciamento entre as mesas de trabalho, de pelo menos dois metros;

  • limitação de pessoas em salas de espera;

  • adequação de objetos de uso compartilhado;

  • disponibilização de álcool em gel, entre outras.

Capacite a liderança

O líder ganha uma posição de destaque no que está sendo chamado de “novo normal”. Mais do que nunca, ele deve estar preparado para orientar a equipe em momentos de incerteza, direcionando as funções e dizendo exatamente a cada colaborador o que se espera dele.

Além disso, o gestor deve estar apto a se comunicar de forma clara e empática, já que os colaboradores podem ter perdido familiares por conta da doença. Nesse sentido, o líder deve ser um catalisador das demandas, intermediando as necessidades da empresa com as dos funcionários.

Vale lembrar que as relações interpessoais devem ser fortalecidas, a fim de facilitar os processos e potencializar a qualidade das entregas. Ao mesmo tempo, a experiência do empregado, ou employee experience, precisa ser otimizada, garantindo a satisfação dos colaboradores, fator fundamental para que eles realizem melhores entregas.

A importância da higienização

As superfícies podem ser facilmente contaminadas. Por isso, a higienização de todas as áreas da empresa deve ser reforçada com o objetivo de conter o contágio.

Maçanetas, mesas, torneiras, copiadoras, vasos sanitários, e outras superfícies devem ser higienizados com álcool 70% ou soluções sanitizantes de forma periódica. Nesse cenário, a equipe de limpeza deve ser treinada e protocolos precisam ser estabelecidos para oferecer higiene e segurança dos ambientes de trabalho.

Como vimos ao longo desta leitura, a volta ao trabalho pós-pandemia deve ser analisada e planejada para oferecer a sensação de bem-estar a todos os colaboradores.

Dicas para lidar com isolamento social prolongado

É inegável que a saúde mental é um dos trending topics de 2020. Antes do cenário de pandemia, já tínhamos o título de país mais ansioso do mundo e o quinto mais depressivo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, só ficamos atrás do Japão quando o indicador é o estresse.

Infelizmente, as organizações ainda não respondem à saúde mental com a mesma paridade que o fazem em relação à saúde física, mesmo havendo evidências claras da eficácia e elevado retorno sobre o investimento. De qualquer forma, o regime de quarentena impôs a pauta em caráter de urgência, sendo amplamente discutida não só no meio corporativo, mas também na sociedade.

Tudo isso propiciou a desmistificação do assunto, associando tecnologia à psicologia. Soluções que contemplam streaming de vídeo e teleconsultas ampliaram o acesso de mais pessoas a profissionais da área. Mas, em caráter individual, como promover melhorias no próprio estado mental?

Conversamos com Iaci Rios, diretora da IMR&ERICKSON – empresa especializada em treinamento e orientação profissional, para conhecermos suas dicas para o enfrentamento do isolamento social prolongado e a manutenção de uma mente saudável.

Cuide de você – Não descuide das coisas essenciais para seu bem estar: uma boa alimentação, qualidade de sono, atividade física, boa convivência com familiares e contato virtual frequente com as pessoas de quem gosta.

Evite entrar nos imensos e inúmeros grupos de WhatsApp que, além de lotarem seu celular com mensagens nem sempre interessantes, ainda podem te deixar com um sentimento de culpa por não conseguir responder. É possível sair de alguns deles com delicadeza, sob a justificativa de não estar dando conta de acompanhar as conversas.

Outro ponto fundamental é reservar horários para o lazer, fazer as coisas que lhe dão prazer, como meditar, ler, assistir a um filme, conversar, pintar, etc.

Cuide do seu lar – Não descuide da limpeza, organização das tarefas e respeito pelos ambientes da sua casa. Se você convive com mais pessoas, vale a pena uma conversa para que cada um exponha suas necessidades de espaço e tempo para trabalho, estudo e lazer, buscando acordos amigáveis. O que é combinado não sai caro!

Cuide do seu trabalho – Se você está em regime de home office, mantenha seu espaço de trabalho organizado. Exatamente como costuma fazer em sua empresa. E estabeleça limites de horário. Se alguém da sua equipe ou seu líder estiver invadindo seus horários de refeição ou lazer, exponha isso de maneira sutil e proponha que encontrem juntos uma solução, pois isto vai minar muito sua capacidade de atravessar a quarentena.

Também é importante se manter informado com parcimônia; sem virar escravo dos noticiários. Escolha uma fonte confiável e cheque, no máximo, uma vez ao dia. E, acima de tudo, não tenha medo de acolher seus sentimentos! Todos estão passando pelas mesmas emoções: medo, insegurança, raiva, desconforto, tristeza. Mantenha-se aberto a essas emoções, não tenha receio de falar sobre isso com as pessoas íntimas.

Ações sociais e econômicas de enfrentamento à Covid 19

O mundo passa por um momento grave de pandemia, que, por consequência, faz com que tenhamos de lidar com mudanças bruscas de comportamento, e também nas relações de trabalho.

Diante desse cenário muita informação vem sendo veiculada, num ambiente de colaboração bastante intensa, que ressalta a essência de nossa natureza humana.

Neste sentido, compilamos algumas informações sobre o tema, destacando, dentre outras:

Resumo das principais medidas econômicas anunciadas pelo Governo

Com o objetivo que enfrentar a fase mais crítica dos efeitos do Covid-19 sobre a economia, o governo anunciou algumas medidas, as quais resumimos abaixo:

  • Suspensão por 3 meses do prazo para as empresas pagarem o FGTS e o SIMPLES Nacional;

  • Redução de 50% das contribuições devidas ao Sistema S (SENAI, SESI, SESC, SENAC, SEBRAE, etc) por 3 meses;

  • Transferência dos valores não sacados do PIS/PASEP para o FGTS, para permitir novos saques;

  • Suspensão das cobranças de dívidas fiscais e facilitação da renegociação de dívidas;

  • Aceleração da concessão de benefícios previdenciários via atendimento exclusivamente virtual. Por exemplo, ao pedir o auxílio-doença o laudo de um médico particular será anexado eletronicamente ao requerimento, por meio do aplicativo Meu INSS, sem necessidade de perícia médica federal presencial.

Medidas Temporárias para manutenção do Emprego e trabalho, mediante negociação entre empresa e empregado:

  • Teletrabalho: permitir que a empresa determine a transferência para o sistema remoto diretamente com o trabalhador com um prazo de notificação de 48 horas. As questões relativas à infraestrutura devem estar no contrato individual de trabalho (na medida do possível, buscar coletar o aceite eletrônico do empregado).

  • Antecipação de férias: simplificar o procedimento para que seja acordado com o trabalhador também com notificação de 48 horas. Abre também a possibilidade para que se conceda um tempo proporcional de férias para trabalhadores que ainda não tenham o período aquisitivo de 12 meses (na medida do possível, buscar coletar o aceite eletrônico do empregado).

  • Férias coletivas: as empresas podem antecipar o período de férias coletivas notificando o trabalhador com o mínimo de 48 horas, sem a necessidade de notificar os sindicatos e o Ministério da Economia (na medida do possível, buscar coletar o aceite eletrônico do empregado).

  • Banco de horas: tornar o uso do banco de horas mais dinâmico para permitir que o trabalhador fique em casa neste momento. Os dias não trabalhados como banco de horas serão usados em favor da empresa no futuro.

  • Redução de jornada e salário: abre-se a possibilidade para que haja a redução proporcional de salários e jornada de trabalho no limite de 50% mediante acordo individual, com a garantia de remuneração mínima de um salário mínimo e a irredutibilidade do salário hora.

  • Nota: O governo vai arcar com parcela do rendimento daquele empregado que terá a redução salarial por conta da redução da jornada, na forma de um auxílio emergencial.

  • Antecipação de feriados: feriados não religiosos podem ser antecipados, sem prejuízo financeiro, para que o trabalhador fique em casa neste momento.

  • Exames médicos ocupacionais: com exceção dos admissionais, ficará suspensa a obrigatoriedade para evitar a sobrecarregar dos sistemas de saúde público e privado. Também fica suspensa a obrigatoriedade dos treinamentos periódicos.

Trabalhadores informais, MEI e desempregados que estejam dentro dos critérios do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (Cadastro Único) e tenham mais de 18 anos vão receber o auxílio emergencial por 3 meses, não sendo necessário o cadastramento, uma vez que serão alcançados os que constam do Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) do INSS.

Um ponto polêmico que se apresenta é em relação aos afastamentos por doença, a responsabilidade pelo diagnóstico, pelo pagamento e pela apuração do valor correspondente, uma vez que:

No dia 13/03/2020, o TST publicou, dentre outras, algumas orientações as quais resumimos da seguinte forma:

  • Em caso de medidas de quarentena e isolamento, as faltas ao trabalho serão consideradas justificadas.

  • Quarentena e Isolamento somente poderão ser determinados pelo Poder Público (Lei 13.979/2020 e Portaria 356/2020).

Somente nesses casos, o período de ausência decorrente será considerado falta justificada ao serviço público ou à atividade laboral privada.

No caso de afastamentos não decorrentes do coronavírus, aplicam-se as disposições gerais para licença por motivo de saúde, ou seja, trabalhadores filiados ao INSS incapacitados para o trabalho ou para sua atividade habitual por mais de 15 dias têm direito ao auxílio-doença.

Durante os primeiros 15 dias consecutivos de afastamento, cabe à empresa pagar ao empregado o seu salário integral. Após o 16º dia, o pagamento é feito pelo INSS.

No dia 19/03/2020, o secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco, afirmou que o INSS pagará os primeiros 15 dias de afastamento do trabalho dos segurados se o empregado for diagnosticado com coronavírus, porém esta medida precisa de maior esclarecimento, pois, nos remete, dentre outras, às seguintes dúvidas:

  • Como se dará a confirmação do diagnóstico, considerando que até o momento não há testes suficientes para todos, e o ministério da saúde os está priorizando para pacientes mais graves?

  • Quem será o responsável pelo diagnóstico? O serviço médico da empresa, o SUS, o INSS, …?

  • Pela regra vigente, o pagamento dos 15 primeiros dias são calculados com base no salário integral do empregado. Se o INSS passar a arcar, será na mesma sistemática ou limitado ao teto de benefícios?

  • Se for limitado ao teto, a empresa deverá pagar a diferença?

  • Se a empresa tiver que pagar a diferença, o fará somente em relação aos primeiros 15 dias, ou a todo o período de afastamento?

  • Importante ressaltar que tais medidas serão formalizadas via Medida Provisória e/ou Projeto de Lei, no entanto as empresas e gestores de pessoas já podem se mobilizar para planejar a aplicação de tais medidas, de acordo com a realidade de cada setor e de cada empresa.

Ambiente saudável

Está entre as obrigações da empresa cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina do trabalho. Além disso, também deve instruir os empregados, por meio de ordens de serviço, sobre as precauções a tomar para evitar acidentes do trabalho ou doenças ocupacionais (CLT, artigo 157, incisos I e II). Exemplos de atitudes que vem sendo tomadas pelas empresas:

  • Divulgação das práticas recomendadas para a prevenção em cartazes e banners instalados nos locais de maior trânsito de pessoas, na intranet, redes sociais corporativas e no bom e velho quadro de avisos;

  • Intensificação da higienização com a utilização de álcool 70% para limpeza das áreas comuns;

  • Reintrodução de copos descartáveis para substituir a utilização de louças;

  • Disponibilização de álcool em gel em todas as dependências;

  • Portas que não impactam a segurança devem ser mantidas abertas para diminuição das superfícies de contato e janelas devem ser mantidas abertas para aumentar a ventilação dos espaços.

  • O empregado, da mesma forma, tem o dever de observar as normas de segurança e medicina do trabalho e colaborar com a empresa na sua aplicação.

  • Nunca é demais repetir as recomendações aplicáveis a toda Sociedade:

  • Apesar da nossa cultura de acolhimento humano, evitar abraços, apertos de mãos e deixar saudações calorosas para outro momento;

  • Lavar as mãos com frequência;

  • Evitar de levar as mãos na região na boca, nariz e olhos;

  • Trabalhar em home office por pelo menos 14 dias se tiverem viajado para qualquer área de risco;

  • Em caso de sintomas tosse seca, febre, dores no corpo, congestão nasal e dificuldade respiratória procurar atendimento médico.

Solidariedade

Como já dissemos no início deste artigo, estamos passando por um momento de grande apreensão, que nos faz repensar comportamentos individuais e coletivos. Muito além de toda a questão legal envolvida, está a preocupação e o cuidado redobrado na preservação da vida do conjunto da sociedade, independente de crença, raça ou classe social.

O que deve prevalecer é a colaboração, o bom senso e a consciência de nosso papel como seres humanos integrais. Neste sentido, tomo a liberdade de reproduzir uma mensagem, dentre as muitas que recebemos em redes sociais, e que sintetiza muito a combinação de colaboração social e econômica:

“Se você tem salário fixo, paga mensalmente um trabalhador autônomo e a crise epidemiológica vai afetar a sua rotina e não o seu salário, continue pagando diaristas, terapeutas, professores particulares, professores de atividades físicas, etc.”

NÃO INTERROMPA OS PAGAMENTOS.

A Pandemia exige também solidariedade, pensamento coletivo e esforço de todos para a economia não travar”.

Não entre em pânico! Mantenha a serenidade e siga as recomendações das autoridades de saúde! Juntos sairemos mais fortes deste momento de dificuldade!

Como manter a conexão social durante o distanciamento social

É muito difícil separar nossos corpos de nossos corações. Na semana passada, setecentas pessoas em New Rochelle – o epicentro em quarentena do surto de Covid-19 em Nova York – realizaram uma reunião online na cidade. Enquanto cada um deles estava confinado em suas casas, sozinhos ou com a família, a comunidade se reuniu nesse espaço virtual.

Decisões foram tomadas. Os alunos com computadores e iPads em casa puderam continuar suas aulas via videoconferência. Seria necessário adquirir esses eletrônicos para as crianças que não tinham seus próprios. Um fornecedor local, que já havia preparado comida para um Bar Mitzvah, se ofereceu para dividir a refeição em 152 caixas e entregá-las aos necessitados. Pais perguntavam se poderiam tocar em seus filhos. Um marido e uma mulher à beira da separação teriam que encontrar uma maneira de trabalhar juntos em casa. “Até uma casa grande fica pequena quando você está trancada nela”, a esposa me disse.

Na era de Covid-19, um novo “normal” chegou. À medida que nos isolamos como indivíduos e famílias, precisamos ativar a resiliência de nossas comunidades para reunir informações, planejar intervenções em escolas e hospitais e elaborar estratégias sobre como continuar trabalhando, aprendendo, socializando, amando e desejando, através de telas. Este é um território desconhecido para muitos de nós, e é a primeira vez em nossas vidas que a ordem de distanciamento social* foi uma norma em nível global.

China e Europa, bem como cidades americanas como Seattle e New Rochelle, embarcaram nessa jornada algumas semanas antes do resto do mundo. No momento da produção deste artigo, estima-se que os EUA, Inglaterra, França, Espanha e Alemanha estejam aproximadamente 9 a 10 dias atrás da Itália na progressão do COVID-19.

Ouçam o que os italianos gostariam de saber há dez dias – O conselho deles segue diretrizes da Organização Mundial da Saúde, que enfatiza a necessidade de se distanciar socialmente o mais cedo possível para retardar a propagação do vírus e achatar a curva. Mesmo que uma pessoa infectada tenha um caso leve, ela pode ter um impacto significativo se infectar acidentalmente outra pessoa que é mais vulnerável a esta doença. Portanto, devemos perguntar: quando a coisa mais socialmente responsável que podemos fazer é evitar outras pessoas, como podemos manter a conexão social?

Nós estamos juntos nessa – Devemos reconhecer que estamos entrando em um período de prolongado estresse agudo, de incertezas e que será uma realidade compartilhada – com nossas famílias, comunidades, colegas e toda a humanidade. Devemos estar fisicamente separados, mas estaremos emocional e psicologicamente nisso juntos! Embora as circunstâncias sejam diferentes, essa situação induziu rapidamente um pânico psicológico, não muito diferente do que historicamente ocorreu em resposta a ataques terroristas, desastres naturais e vida nas zonas de guerra, especialmente quando há falta de recursos, as informações são ambíguas e instruções não são claras. É fácil sentir-se impotente. Ativar os recursos de cura coletiva de nossas comunidades – compartilhando histórias e informações precisas, ajudando uns aos outros e elevando o espírito dos outros – é o antídoto mais poderoso para o medo, a solidão e o isolamento.

Nos anos oitenta, eu e meu marido Jack Saul – um psicólogo especializado em trauma psicossocial em larga escala e resiliência coletiva – ensinamos juntos no Centro Psicossocial para Refugiados, em Oslo, sobre a vida familiar em guerra e exílio. Compartilhamos como condições extremas afetam a comunicação e a proximidade entre casais, pais, filhos e vizinhos.

Usei de ponto de partida o meu trabalho com judeus que estavam “escondidos” durante a Segunda Guerra Mundial e o que aprendi sobre como a situação afetava a intimidade emocional, sexual e intelectual deles. Jack, por sua vez, ensinou que essas situações não provocavam apenas o trauma do indivíduo, mas de comunidades inteiras. Grande parte do trabalho dele envolve a realidade de que o trauma coletivo requer cura coletiva, um processo dependente da ativação de nossas comunidades, não apenas a nós mesmos. Isso eleva a todos e tira certas pressões de nossos parceiros e famílias para fazer tudo sozinhos, um feito esmagador e quase impossível.

Depois do 11 de setembro, Jack e eu realizamos workshops para residentes, professores, alunos e pais em nossa comunidade no centro de Manhattan. Em vez de rastrear indivíduos para TEPT, reconhecemos que o trauma coletivo estava ocorrendo. Ele enfatizou a necessidade de explorar os pontos fortes e os recursos da comunidade para lidar com medos comuns, como por exemplo, sobre como ajudar as crianças a se sentirem seguras. Estávamos todos discutindo juntos como viver com a incerteza de um estresse ambiental prolongado, deslocamento e perda – de pessoas, lares, escolas, renda e inocência. Foi um período de grande incerteza e coesão comunitária sem precedentes. Algo semelhante está acontecendo aqui e agora. Muitas das lições que aprendemos são aplicáveis, mas há uma reviravolta: em vez de precisar sair de nossas casas, devemos permanecer confinados a elas.

Conexão social em meio ao distanciamento social* – Para tornar o distanciamento social* suportável, e não uma grande fonte de tensão, precisamos insistir em manter nosso apoio social e emocional. As mídias sociais nunca foram tão importantes para fornecer conexão e contexto, pois muitas de nossas comunidades ficam totalmente online. Recentemente, participei de um culto de Shabat com 900 pessoas, no Facebook Live. Cantamos juntos e praticamos os rituais compartilhados que nossos ancestrais também mantinham em situações de crise, injustiça, pobreza e pavor. Fomos atraídos por nosso rabino, Amichai Lau Lavie, que nos convidou com a mensagem: “Saiba que estamos juntos nisso, que temos maneiras de nos comunicar e que nossos ancestrais nos deixaram histórias e ferramentas para nos ajudar a lidar com essas realidades mais dramáticas.”

Todos nós, em todas as partes do mundo, carregamos esses tipos de histórias de vulnerabilidade e triunfo. As histórias são nossas diretrizes sobre como se adaptar no presente. Como Jack Saul escreveu em seu livro “Trauma coletivo, cura coletiva”, a resiliência é tão eficaz quanto diversa. Ela deve se basear na perspectiva de todas as raças, credos e classes, bem como em várias tradições indígenas, tanto seculares quanto religiosas. Quanto mais histórias compartilharmos, melhor estaremos.

Ações práticas:
– Inicie um bate-papo em grupo com sua família para obter atualizações e incentivo. Discuta as melhores práticas para cuidar de familiares idosos e mais jovens. Compartilhe planos, faça ligações telefônicas e até videoconferências.

– Jack Saul aconselha a criação de um ecomap dos seus recursos. Quem você conhece? Onde eles estão? Quem pode ajudá-lo com o que? E quem você pode ajudar?

– Participe do grupo da sua comunidade local no Facebook ou NextDoor para obter informações sobre o ambiente e participar de conversas em grupo com os vizinhos. (Em um grupo do Facebook para mães de Long Island, um membro alertou o grupo sobre lojas locais terem ficado sem papel higiênico e incluiu um link com onde poderiam comprar da Amazon)

– Sugira uma ceia digital aos domingos com os amigos por meio de uma videoconferência. Inicie um clube de livros ou filmes. Compartilhe música. É importante continuar a se conectar culturalmente de maneiras que não são definidas compartilhando atualizações sobre o Coronavírus.

– Evento importante cancelado? Veja se ele pode ser realizado virtualmente por meio de bate-papo em grupo ou transmissão ao vivo, como festas de aniversário e óperas. É mais divertido do que parece.

– Se você tem filhos em idade escolar, crie estrutura e rotina para ajudar a apoiar o aprendizado. Entre em contato com outros pais para solucionar problemas, compartilhar idéias criativas e se solidarizar. Não seja duro consigo mesmo se precisar quebrar as estruturas que você criou; é uma experiência de aprendizado para todos nós.

– Se você puder, seja voluntário para ajudar professores, administradores e alunos na transição para o aprendizado virtual.

– Se você puder se voluntariar virtualmente para ajudar centros de idosos locais, instalações de atendimento domiciliar, hospitais e centros de atendimento de urgência, ligue ou envie um e-mail para descobrir como fazê-lo.

– Encontre fóruns virtuais abordando situações semelhantes. Por exemplo, Sub-Reddits para pessoas em quarentena.

– Interaja com a natureza.

– Cheque notícias para evitar a disseminação de informações erradas.

O estresse econômico e a solidão são dois dos determinantes sociais mais importantes para saúde. Se você estiver em condições de contribuir financeiramente, considere fazer uma doações.

Se você estiver em condições de doar sua energia e tempo, entre em contato com vizinhos idosos para ver se você pode deixar suprimentos ou alimentos do lado de fora da porta. Considere iniciar um levantamento de fundos virtual entre seus amigos e familiares para arrecadar dinheiro para ONGs. Mantenha-se atualizado com contas de mídia social que compartilharão maneiras de apoiar aqueles em situações difíceis.

No mundo ocidental, nossa tendência é ver a resiliência como um conjunto de características individualistas, e não as capacidades e recursos combinados e diversos de uma comunidade. Está na hora de mudar isso. Apesar da necessidade de permanecer fisicamente separados, temos a oportunidade de ativar o tipo específico de resiliência coletiva que pode surgir quando confrontados com incerteza prolongada com potencial de trauma generalizado. Um poderoso antídoto para a solidão e o medo é ter objetivos. Pratique um mantra para esses tempos estranhos: estamos todos juntos nisso.

*Distanciamento social não é o termo correto para o momento em que estamos vivendo atualmente, você pode entender melhor sobre aqui.

Artigo escrito pela psicóloga belga Esther Perel. Ela é considerada uma das principais vozes mundiais sobre relacionamentos individuais e coletivos.